1- Yoani Sánchez critica silêncio
do Brasil com relação aos direitos humanos em Cuba
Quatro dias depois de chegar ao país, blogueira cubana consegue, enfim,
expor suas ideias sem ser interrompida por gritos de protesto
A blogueira Yoani Sánchez criticou a mudez do governo
brasileiro com relação à questão dos direitos humanos em Cuba. "Há muito
silêncio", disse a cubana. "Recomendaria uma posição mais
enérgica". A declaração foi feita na manhã desta quinta-feira, quatro dias
depois de Yoani desembarcar no país, durante um debate realizado na sede do
jornal O Estado de S. Paulo.
Com a voz levemente rouca e uma pulseira do Senhor do Bonfin no braço direito,
esta foi a primeira vez que a blogueira crítica ao regime ditatorial dos irmãos
Castro conseguiu expor suas opiniões sem ouvir gritos
de protestos nem sofrer agressões verbais.
"Não me
surpreenderam", disse, ao comentar os protestos. "Os blogs oficiais
do meu país já haviam avisado que eu teria uma resposta contundente durante a
viagem. Todos têm direito de manifestar sua opinião. O que me surpreendeu foi a
violência física. Nunca imaginei que me impediriam de falar".
A blogueira aproveitou o evento para responder parte das
críticas que os defensores dos irmãos Castro fazem a ela. Ao ser questionada
sobre quem está financiando sua viagem – Yoani percorrerá mais de dez países em
80 dias –, a cubana respondeu que o dinheiro vem de diversas instituições, como
a Anistia Internacional, universidades e blogueiros. "Não tenho milhões de
dólares, mas tenho milhões de amigos". Um dos objetivos de Yoani é receber
os prêmios (que somam mais de mais de 300 000 reais) que recebeu ao longo dos
últimos anos pelo trabalho em Generación Y.
Yoani
aproveitou para salientar que as pessoas que a ajudam com o blog (traduzido
para 18 idiomas) são voluntários espalhados pelo mundo. "Quem traduz meus
textos para o inglês, por exemplo, é uma motorista de ônibus de Nova York de 65
anos", conta. "Mas o governo não acredita mais na espontaneidade.
Quando eles querem algo, ordenam, pagam".
Nesta quinta-feira, às 18h, Yoani participará de um
evento com blogueiros na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo,
e, em seguida, autografará o livro De Cuba, com carinho.
A blogueira permanece na capital paulista até sábado, quando embarcará para a
Republica Checa.
Veja abaixo alguns dos temas comentados por Yoani Sánchez no
debate desta quinta-feira:
Internet
A internet é para os cubanos uma plataforma de liberdade. Um campo de treinamento
para o que algum dia pode se tornar realidade. Ela possibilita que mais pessoas
possam se tornar o epicentro da informação. É um espaço democrático, com
pessoas boas e más.
Fidel e Raúl Castro
O governo de Raúl nasceu de um pecado original: ele não foi eleito. As reformas
econômicas que tem feito estão na direção correta, mas num ritmo absurdamente
lento e sem profundidade. O governo de Fidel Castro, por sua vez, queria
controlar cada aspecto da vida dos cubanos, desde o que vestíamos ao café que tomávamos.
Sobre a repressão, Fidel fazia dela um espetáculo, com grandes julgamentos e
punições exemplares. No governo de Raúl, a repressão é velada.
Comunismo e capitalismo
Tenho uma relação ruim com as ideologias. Sou uma pessoa pós-moderna, que
cultua a liberdade. Não creio que em Cuba haja um socialismo e muito menos
um comunismo. Classificaria o governo cubano como um capitalismo de estado.
O patrão é o governo.
Educação e saúde
A estrutura física e a extensão da rede de ensino e de saúde em Cuba são aspectos
positivos. Existem escolas e postos de saúde em cada bairro. Porém, existe um
colapso material. Os professores ganham menos de trinta dólares por mês, o que
diminui a qualidade. São pessoas despreparadas.
Economia
Cuba vive hoje uma esquizofrenia monetária. Existe o peso cubano e o peso
conversível. O cubano acorda todos os dias com um objetivo: o que fazer para
conseguir pesos conversíveis e alimentar sua família. Existem algumas
alternativas. Caso ele seja um cozinheiro de um grande hotel, por exemplo, pode
roubar um azeite ou um pedaço de queijo para vender no mercado negro. Também
pode se prostituir, trabalhar clandestinamente ou pedir que parentes que
emigraram enviem dinheiro. Quem não tem nenhum desses caminhos passa mal. O
salário não é mais a principal fonte de renda.
Embargo econômico
Há uma teoria que diz que o embargo é uma caldeira. O fogo geraria precariedade
econômica e material, o que levaria as pessoas à rua. Mas o embargo não resulta
em rebeldia, mas na imigração dos cubanos. Outro motivo pelo qual sou contra o
embargo é o fato de que ele embasa os argumentos do governo cubano que diz que
não há batatas, não há tomates, não há comida por causa do império. Sem essa
desculpa, quem eles vão culpar?
Protestos internos
Desde pequenos, os cubanos recebem uma série de informações e propagandas que
fazem com que eles acreditem que o país não lhes pertence. Pertence a uma
geração histórica, que foi a protagonista da revolução. Isso cria uma apatia
grande. Além disso, tem uma paralisia provocada pelo medo. Não um medo da
morte, mas um medo da delação. Você acha que será denunciado pelo seu vizinho.
Isso leva muitas pessoas a tentarem resolver os seus problemas individualmente.
Mas existe uma oposição hoje de jovens que se manifesta artisticamente, via
internet, que procura divulgar as informações de forma ampla.
Manifestações no Brasil
Muitas dessas pessoas que protestaram contra mim nunca estiveram em Cuba.
Outras estiveram por duas semanas fazendo turismo. É uma visão muito
superficial. Para os mais velhos, acredito que seja difícil assumir que aquilo
em que eles tanto acreditaram está morto, não deu certo. O governo cubano cria
uma realidade distorcida. Eles propagam uma Cuba que não existe, uma cidade
utópica, de esperança, onde todos têm chances. Quando meu filho era criança
chegou em casa da escola dizendo que antes de Fidel Castro não havia
universidades em Cuba. Isso é mentira.
A blogueira
favorita da mídia
Por Cynara Menezes
Falta um dente no sorriso da
blogueira “milionária”, como parte da esquerda se esforça em catalogar Yoani
Sánchez. Tanto o endeusamento patrocinado pela mídia internacional quanto a
tentativa de reduzi-la a uma mera agente a serviço dos Estados Unidos foram os
responsáveis por elevar a jornalista de 37 anos ao patamar de opositora mais
visível do regime cubano hoje.
No Brasil, Yoani foi recebida praticamente como chefe de Estado
por políticos da oposição, com direito a interromper uma sessão da Câmara para que
ela conhecesse o plenário.
A blogueira cubana iniciou aqui uma turnê por 12 países da América
Latina e Europa, além dos Estados Unidos, que se tornou possível após Cuba ter
mudado a política migratória, em janeiro. Antes disso, Yoani havia feito 20 tentativas
de sair da ilha nos últimos cinco anos, em vão. Ela é pequena, muito pálida e
magra. Seus cabelos longos lhe conferem um certo ar de evangélica. Calma,
enfrentou estoicamente os protestos furiosos e despropositados de militantes do
movimento estudantil em sua passagem pela Bahia, na semana passada. Ao falar,
porém, sua voz grave se impõe, é articulada e soa extremamente convicta de seus
objetivos.
O objetivo número um é, claro, derrubar o regime de Fidel e Raúl
Castro. Para isso, Yoani Sánchez não parece preocupada em se unir a quem for.
Foi nomeada vice-presidente para Cuba de uma entidade patronal de imprensa, a
SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), e não demonstra interesse em
discutir problemas de direitos humanos a não ser em seu país. Sempre que
perguntada sobre os presos norte-americanos na base de Guantánamo, por exemplo,
responde: “Acho um horror, uma ilegalidade. Infelizmente não posso fazer nada
quanto a isso”. Na Câmara dos Deputados, posou ao lado do que há de pior na
política brasileira, como o líder ruralista Ronaldo Caiado e o brucutu
homofóbico Jair Bolsonaro.
Hábil com as palavras, a cubana recorre a frases de efeito para
responder questões mais difíceis, como a recorrente pergunta sobre a educação e
a saúde cubana, apontadas como exemplo de que há coisas boas no regime que
tanto critica. “É como se eu fosse um passarinho que deveria estar feliz na
gaiola só porque recebo alpiste e me ensinam alguns truques. Eu quero voar”,
diz. A frase é ótima e ela a repete em toda parte.
Tampouco adianta tentar fazer comparações entre problemas de
outros países com os que enfrenta no seu, que ela se sai com essa: “É como se
eu estivesse com dor de dente e alguém viesse me dizer: ‘você reclama, mas eu
tenho dois dentes doendo’. Isso não vai fazer com que o meu pare de doer.”
Justiça seja feita: Yoani não foge de nenhuma pergunta, muito embora a
condescendência com que foi tratada pelos repórteres no Brasil não tenha sido
exatamente um desafio. Ela nega o suposto financiamento que teria de entidades
governamentais dos EUA, atribuindo a “difamações” propagadas pelos Castro.
Compare
os textos. Observe semelhanças e / ou diferenças em relação às declarações e
ideias defendidas pela blogueira cubana.
Obs:
não se esqueça de verificar as fontes dos textos.
De
acordo com seus estudos em aula, procure explicar a afirmação grifada no texto
1.